A HISTÓRIA DO URUCUM

A palavra urucum tem origem na linguagem Tupi-Guarani transliterado “uru-ku” e significa “vermelho”. Seu nome científico, “Bixa orellana L”, foi dado em homenagem a Francisco de Orellana (1490-1546), um membro da expedição de Francisco Pizarro e o primeiro explorador espanhol que navegou o rio Amazonas. A ampla distribuição geográfica dessa planta fez com que ela fosse conhecida por vários nomes. No Brasil também é conhecido por nomes como urucu, urucum, urucu-uva, urucu-bravo, açafroa e bixa, além de nomes indígenas como ahitê, nukirê, bixe e bixá. Na América espanhola o urucum é conhecido como achiote, anoto, achote, onotto, onotillo, roekoe, schirabaeli, koessewee, koesowe, bija, cacicuto, uruca, achiotillo, arnotto, arnolta, roucou, chancaguarica, kuxub, achihuiti, achiti, shambu, huantura, atta, santo domingo, analto e guajachote. Na Espanha tem o nome de bija, na França de rocouyer, na Alemanha de orlenasbaum, na Itália, Inglaterra e Estados Unidos de annatto e na Índia como lathan ou kolssewil (CARVALHO, 1989; CORREA, 1975; MARTORELL, 1975; SANTOS, 1958).

Desde os tempos mais remotos, os habitantes das Américas Central e do Sul empregavam a porção corante das sementes de urucum para tingir de vermelho seus artefatos de caça, pesca, vestimentas, enfeites de guerra e o próprio corpo.

A primeira referência ao urucum pode ser atribuída a Pero Vaz de Caminha em sua carta ao rei de Portugal Dom Manuel informando a descoberta do Brasil. Diz em um trecho da carta: “E segundo diziam esses que lá tinham ido, brincaram com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades, outros de tanta feição como em pano de ras, e todos com os beiços furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que, na cor, queriam parecer de castanheiras, embora mais pequenos. E eram cheios duns grãos vermelhos pequenos, que, esmagando-os entre os dedos, faziam tintura muito vermelha, de que eles andavam tintos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam”. Esse relato descreve a cachopa (“...traziam uns ouriços verdes, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora mais pequenos.”) e as sementes do urucum (“... cheios duns grãos vermelhos pequenos, que, esmagando-os entre os dedos, faziam tintura muito vermelha...”).

Algumas referências indicam que os Astecas usavam os pigmentos de urucum para dar a consistência e aparência de sangue a uma bebida preparada a partir do cacau. Essa bebida era então utilizada em seus rituais, simulando o sangue humano. Nativos da América do sul utilizavam óleos, resinas, ceras e gorduras extraídas de plantas ou animais, para a preparação dos corantes de urucum. O uso desses materiais reforçava a ação protetora do urucum contra os insetos. Índios do Peru e do sul do Equador utilizavam a gordura obtida do guácharo, um pássaro de hábito noturno, para a obtenção desse corante (PATINO, 1967). Nativos brasileiros usavam gordura de peixes, capivaras e jacarés para produzir uma espécie de pomada que utilizavam para a pintura corporal (ALMEIDA, 1931). Os índios Tagnanis de Mato Grosso misturavam ao corante de urucum uma resina perfumada obtida da almecegueira (Protium heptaphyllum).

Os processos artesanais de obtenção dos corantes das sementes de urucum, aprendido com os índios, continuou por muito tempo. FREIRE, em sua publicação de 1936 (Ligeiras informações sobre a cultura e a indústria do urucu) cita a fabricação do que ele chama de “pães de urucu”, da seguinte forma: “As sementes colhidas logo são lançadas em uma gamela ou celha, escaldam-se com água a ferver; a massa é remexida freqüente vezes para separar o testa ceráceo das sementes. Depois de alguns dias é a massa passada por um crivo, para extremar a substância tintorial. Dá-se descanso ao líquido durante uma semana a fim de fermentar e poder depositar a matéria corante. Passado esse tempo retira-se a água clara. A matéria tintorial que assentou é depois distribuída em recipientes apropriados, para que a umidade excessiva se evapore à sombra. Quando a substância adquire a consistência da massa de vidraceiro, dá-se-lhe a forma de pães que se envolvem em folha de bananeira. É esse o pão de urucum que se exporta em grande quantidade do Brasil”.

O consumo desse corante logo passou a ser feito com a semente moída, que ganhou o nome de colorau em referência a uma especiaria portuguesa homônima, de coloração similar, feita com pimentão vermelho moído. Com o aumento do consumo desse corante e a escassez das sementes de urucum a alternativa encontrada na época foi a adição de milho às sementes de urucum. FREIRE (1936) escreveu: “Diante porém da escassez de sementes dessa natureza é o colorau adicionado na sua fabricação de grande percentagem de milho, numa porção de 2:1 para cada uma dessas espécies de sementes”. Nascia naquela época o colorau como é comercializado hoje.

No século XVIII os ingleses descobriram que o urucum é um corante muito útil para a fabricação de queijo, pois além de se ligar a proteína do leite e não se perder durante a cura, confere uma cor muito interessante a diversos tipos de queijos. O urucum foi o primeiro corante vegetal a ser comercializado em larga escala com a Europa. Em 1944 mais de 15 toneladas de sementes de urucum foram enviados para a Europa a partir do porto de Vera Cruz, no México (PATINO, 1967).

As bases químicas dos pigmentos do urucum tem sido bastante estudadas até hoje. A bixina, o principal pigmento das sementes de urucum, foi primeiramente isolada por BOUSSINGAULT em 1825. A elucidação de sua fórmula molecular (C25H30O4) foi apresentada por HEIDUSCHKA e PANZER em 1917 e em 1923 HERZIG e FALTIS descreveram a bixina como o éster monometílico de um ácido dicarboxílico insaturado. Contudo, a hipótese de assimetria molecular foi abandonada quando uma nova estrutura foi proposta por KUHN e WINTERSTEIN em 1932 e confirmada por KARRER e colaboradores naquele mesmo ano. Como resultado dessas investigações concluiu-se que a bixina é um carotenóide com configuração cis de ocorrência natural (GIRIDHAR et al, 2014; SCOTTER, 2009).

Em 1936 FREIRE em sua monografia sobre o urucum afirmava: “uma cultura que embora relegada ao completo indiferentismo merece, contudo, o carinho de uma exploração em larga escala”. Sua previsão se confirmou e atualmente o Brasil é o maior produtor mundial de sementes e corantes de urucum, com uma produção estimada em 2015 de 13.000 Toneladas. O principal produto derivado das sementes de urucum ainda é o colorau mas seus pigmentos são encontrados em muitos produtos como massas, salsichas, queijos prata, sorvetes, iogurtes, temperos, etc.

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